UMA FLOR DOS NAGÔS…


Salve Deus!

 

Esta história é cheia de encantos dentro de uma passagem que renova o espírito na sua longa permanência entre os encarnados.

 

Lá atrás, numa vida dentro da escravidão, onde quem era inferior se mantinha como animal e era submetido às maiores provações da carne, eles ainda se mantinham senhores de outros escravos. Eram os escravos escravizando sua própria raça.

 

Na fazenda havia uma bela jovem que os negros a criavam como a flor dos nagôs. Era uma moça que era filha bastarda do senhorio e sem contato com a casa grande, pois se assim fosse haveria muitas tragédias, então os nagôs a esconderam da verdade, e ela foi criada com mimos das irmãs, sem conhecer a realidade.

 

Como sempre há os que gostam de se aproveitar dos enredos mal vividos, e ela foi raptada por um outro negro que a levou embora da fazenda. Despertou uma procura, ninguém sabia seu paradeiro e nem quem a levou. O fazendeiro ficou com muito ódio, e mandou seus capatazes procurar, os mateiros, para que só voltassem com ela. Passou-se então algum tempo e um dos mateiros voltou para a fazenda com notícias desta negra.

 

O coronel logo se armou e foram atrás. Chegando lá, numa pequena cabana de toras de árvores, bem pobre, somente uma peça para se abrigar, eles chegaram e logo deram de cara com o negro raptor. Foi uma discussão feia, muitas ameaças, muitos confrontos, mas nada além de tom agressivo. Como o negro não queria libertar a moça, o coronel lhe ofereceu dinheiro, mas ele não conhecia nada disso, pois nunca tivera contato com valores, os tais reis. O mateiro, então, queria matar o negro, mas a finalidade não era matar, mas trazer a vida. O capataz entrou na pequena senzala e lá dentro havia frutas colhidas nas matas. Ele pegou uma banana e ofereceu ao negro em troca da libertação. O negro aceitou, mas aquilo tudo foi uma provação, porque o que ele queria era o reconhecimento do coronel para com sua filha bastarda.

 

Quando o coronel chegou na porta da cabana o negro encostou sua cabeça no ombro dele e chorando pediu perdão. Sabia que havia conseguido unir os laços familiares, mesmo uma bela jovem ser considerada bastarda. O coronel, ali naquele momento disse que iria reconhecer a filha como sua filha. E assim entre choros e palavras de emoção, os dois, o branco e o negro mantiveram sua palavra. Libertar para libertar.

 

O feitor de escravos queria levar o negro preso, mas o coronel vendo aquela cena, aquela humildade, não deixou, mas perguntou se ele queria viver ali, assim, daquele jeito. O negro balançou a cabeça que sim, ele queria sua liberdade, viver a sua natureza. O escravo era irmão da flor dos nagôs, da mesma mãe, mas de pai diferente.

 

O negro não queria mais tirar sua cabeça dos ombros, chorando muito, arrependido, mas com sua alma em paz. Havia conseguido unir os laços de uma família que ainda era só o começo, como falar para a família sobre o ocorrido. O coronel não estava preocupado naquele momento com a casa grande, mas com o destino da moça. Assim foram embora e o negro ficou parado olhando eles desaparecem pelas matas.

 

Ali a luz permaneceu radiante, os velhos contemporâneos de uma trajetória envolvida em reencontros das vidas nas vidas. O coronel era somente um homem que viveu sua liberdade trancafiada como escravo em outras encarnações.

 

Agora, a casa grande, será mais uma história dos reencontros.

 

Salve Deus!

Adjunto Apurê

An-Selmo Rá

19.08.2018

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