ANDARILHOS…

Salve Deus!

 

_ Tá lembrado de mim! Sou aquele que foi consultar com você naquele centro espírita!

 

Eu estava parado na frente da rodoviária de Campo Largo, agora pela manhã, quando este espírito veio falar comigo. Esta rodoviária fica ao lado do cemitério municipal da cidade, mas o que mais me convenceu a olhar este aspecto, foi que este homem já passou no atendimento do vale. Ele tem família, tem lar, mas de vez enquando da umas loucuras nele, pega sua mochila e sai pelas ruas e estradas deste mundo.

 

O assédio pelos espíritos andarilhos o leva a tomar rumos diferentes ao convívio familiar e social. Isso se chama heranças transcendentais, porque ele também já foi um cigano que vivia correndo pelo mundo sem destino. Onde ele chegasse ali montaria seu acampamento.

 

_ Eu preciso voltar lá naquela casa! Não sei como, estou perdido, estou sem rumo! Depois daquele dia eu voltei para minha família, mas o chamado foi mais forte e aqui estou na minha solidão! O homem precisa de vez enquando ter a sua solidão, estar livre em seus pensamentos, mas algo está errado comigo!

_ Salve Deus!

_ Esta rodoviária é um ponto de chegada e partida, é aqui que se reúnem os amigos das estradas! Daqui vamos decidindo para qual lugar queremos ir, mas nem tudo é maravilhoso, porque com o tempo de tanto andar nossos pés doem, sangram, e nossos corpos padecem! Somos nós vítimas de nossos desejos, ou como você me disse, obsessão!

_ Sim! Meu amigo! A obsessão espiritual dos velhos contemporâneos! Amigos das serestas ao luar pelas noites frias onde o orvalho cristaliza!

_ Há! Como eu tenho saudades daquele tempo! Hoje vivemos um chamado, um despertar, uma desorientação em nossos corações e somos puxados a querer buscar pela saudade os velhos tempos!

_ Saudade! Sim! A saudade bate forte no coração e se o homem não tiver consciência ele perde seus princípios! Se deixa enganar pelas promessas de uma liberdade comprometedora!

_ Liberdade! É o que eu busco na minha solidão! Mas como ser feliz deixando a família nos seus pensamentos! A preocupação deles não me liberta também!

_ Sim! Eles o amam e o querem junto! Por isso esta insatisfação, porque você ainda está preso em dois planos!

_ Eu sou um eterno prisioneiro da minha inconsciência! Esta dor que eu pago quando venho para as estradas!

_ Volte! Eles merecem seu amor, a sua história e a sua experiência!

_ Tô pensando mesmo em voltar!

_ Seja feliz!

 

Assim meu compromisso naquele lugar foi alterado e eu tinha que seguir minha jornada. O homem ficou parado ali no seu lusco-fusco, entre as penumbras de suas confidências e suas dores de decisão.

 

Os homens desta terra que já viveram o apocalipse social nas entrelinhas do destino de povos ciganos ainda estão presos aos seus destinos. Eles não irão se libertar até que cheguem ao eldorado mundo especial. Sempre vão de um lugar para outro, não terão raízes, não fincarão seus mastros e vão perambular pela eternidade em busca de suas paixões. Os seus amores, romances secretos, músicas e danças. Onde a castanhola sopra mais alto embebedando seus seguidores.

 

Como me disse Pai Joaquim de Aruanda: “O povo cigano foi o que mais se endividou espiritualmente”. Por este motivo ainda eles cantam para apaziguar as suas dores internas. Quando se voltam para Deus contribuem para desacelerar o roteiro de suas aventuras. Muitos voltaram para os mundos iluminados, muitos ainda estão encarnados, e muitos ainda vão chegar.

 

O rompimento da grande barreira que estrategicamente separa as ilusões da razão nos mostra a realidade sendo consumida pela deslealdade. Muitos só pensam em si mesmos e em suas condições. Um trabalho voltado a caridade só é possível quando todos estão bem, estão em harmonia, estão prestando a solidariedade humana e espiritual.

 

Seja você quem for, cigano ou não, veja nas entrelinhas de sua história o quanto caminhou para chegar até aqui. Boa sorte em sua pesquisa. Quanto ao andarilho, vamos ver se ele chega até a casa de Seta Branca de novo.

 

Salve Deus!

Adjunto Apurê

An-Selmo Rá

27.07.2018

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