ROSÁRIO DE PRETO VELHO…

Salve Deus!

 

_ Meu filho esta precisando colocar o rosário em seu pescoço.

_ Meu filho já foi um grande curador, um benzedor!

 

Passei meio apertado estes trinta dias, para mim parecia ter acabado a minha vida. Um espirito fez de mim uma cangaia e ele não me perdoou ainda, mas com a ajuda de Pai João de Enoque, que intercedeu junto a ele tive melhoras significativas.

 

A dor surgiu assim do nada e foi aumentando a ponto de não suportar mais. De médico em médico nada achavam, exames e mais exames laboratoriais. Tempo percorrido na tentativa de descobrir o motivo desta doença. Nada.

 

Hoje, minha ninfa convocou o povo para um trabalho especial, ela mesma fez a chamada, e aí vieram os filhos deste pai amado em socorro a uma vitima do presente. O trabalho foi especial, um trabalho de libertação, ali mesmo na frente do radar. Com a abertura da aganara e das falanges os mentores me tiraram o colete e a fita, eu estava prisioneiro de mim mesmo. Eu não iria conseguir libertar este espirito estando de jaguar, porque ele queria ver-me agonizando.

 

Pai João desceu e coordenou este trabalho, muito feliz, porque ele achou muito bonito esta reunião, organização, para ajudar a um irmão de todos. Apesar de ser adjunto comandante eu sou irmão, filho e amigo de todos. Foi assim que aconteceu, a chamada dos congas que responderam no comando do mestre doutrinador que abriu este ritual. Simples, mas objetivo, sim, pois ao falar através do preto velho para o espirito sofredor, isso sem o deixar chegar, pois sua ferocidade era enorme, Pai João me ouvia e transmitia para ele. Foi puro amor de um preto velho que ama seus amados.

 

Quando em angola, eu recebi de Pai João de Angola o predicado da magia natural. Eu tinha certos poderes que curavam as pessoas, assim vamos dizer, pois era um dom dado a poucos que podiam transmutar os segredos da vida e da morte. A cura era um processo que reunia multidões em volta do caminho, mas a vaidade sempre muda o destino. Em uma dessas concentrações um homem vendo tudo aquilo foi tomando espaço para ajudar, mas eram com segundas intenções. Quando o preto velho me entregou este poder, já pela sua avançada idade, ele me proibiu de cobrar pela ajuda ao próximo.

_ Meu filho! Eu lhe confiro este dom, o dom da cura, da materialização, da transmutação, da verdade! Mas lembre-se, o dia que cobrares por este poder perderá tudo!

O homem ganancioso vendo toda aquela gente cresceu dentro dele a ganancia. Então foi promovendo um triste caminho, pois não tendo este dom, ele queria ficar rico cobrando.

 

Eu não admitia, mas sabe como é: a insistência dele me contaminou. Éramos pobres, mas tínhamos um poder curador enorme dado por Deus e pelo preto velho angolano. Então maquiavelicamente ele me convenceu e toda consulta era cobrada, ou em dinheiro da época, ou em medidas de porções. Foi um bom tempo até que um dia o preto velho desceu, ele já havia desencarnado, mas seu espirito bondoso havia conseguido muitas graças. Eu o vi chegando e tão logo senti vergonha, pois lembrei justamente de suas palavras.

 

_ É meu filho! Quebrou o juramento de servir sem ser servido! Entreguei-te uma benção de Deus e você a está usando em proveito próprio!

Senti muita vergonha e sai dali correndo, pedindo perdão, abandonei tudo e a todos. Não esperei nem o preto velho caçar meu dom, e fui embora. Aquele “amigo” ficou por ali cobrando ainda dos pobres enfermos. Ele não via o nagô, mas o seu interesse era na riqueza que se acumulou nos atendimentos.

 

Sou um mestre benzedor curador sim. Tenho todas as forças para realizar este fenômeno da antimatéria, mas ainda carrego a vergonha pela minha falha. Pai João de Angola já veio falar comigo diversas vezes, mas eu não quero fazer tudo de novo. Assumi este sacerdócio do amanhecer, pelo que prezo muito, outro tipo de atendimento, outra missão, outra consciência.

 

Tia me conhecia e por isso ela me entregou em minhas mãos a chave de abertura dos segredos da magia. Não que eu pedisse, mas a história voltou na mesma origem. Seria o recomeço do mesmo erro ou a mudança de jornada. Ela confiou como o nagô também. Esta carta de confiança é o retrato de nossas heranças transcendentais. Quem me diz que este espirito não seja o mesmo que cobrou e eu o abandonei na sua vaidade. Ele perdeu tudo, porque não tendo dom para curar, o povo o linchou tomando ele o que conseguira em proveito próprio.

 

Vovó de Angola veio me trazer o prenuncio desta ordem. Será que vamos errar de novo no testamento que nos conferiu este poder do amanhecer. O que eu vejo é uma desunião tão perigosa quanto às encarnações perdidas. O esparadrapo não tapa mais a boca e os olhos não são mais cegos, os ouvidos ouvem demais.

 

Eu pedi a Deus por mais uma oportunidade de ajudar. Sei que muitos não gostam de minha particularidade, por eu contar as narrativas, pois cada qual tem a sua estrada repleta de ensinamentos. Mas vamos dar um empurrãozinho para todos acreditarem em si mesmo e traçar novos rumos e enfrentar os desafios da vida moderna.

 

Pai João de Enoque fez pelo povo Apurê uma libertação geral. O canto da chamada celestial formou na terra o dossel de energias da caridade. O que vamos fazer quando chegar a hora do firmamento. A quem vamos pedir socorro na hora do findar do dia.

 

Meu rosário de preto velho. Porque nós somos tão incapazes de manter firmes no propósito de ajudar sem ser ajudado. A missão do amanhecer não tem igual, nem aqui na terra e nem no céu. Infelizmente o livre arbítrio é uma porta que nos conduz pela consciência ou inconsciência. Vamos ver quantas contas eu recebi neste dia de amor e justiça. Vou formar meu rosário de amor e libertação. Vou cuidar do meu coração, da minha família, dos meus amores, amigos e inimigos com muito carinho. Meu povo merece toda felicidade, mesmo sendo poucos ainda a descobrir a verdadeira magia, mas um dia chegarão lá radiantes de luz.

 

Eu vou fazer tudo que for possível para todos chegarem à perfeição da magia natural. Eu só preciso do perdão de minha vitima do passado, mas que seja de coração, porque eu aprendi a caminhar, e ela ficou resmungando seus erros como sendo meus. Perdão meu irmão!

 

Quem sabe um dia aprenda a caminhar junto comigo de novo, só que agora dentro das leis deste sacerdócio. Sem cobrar, sem destruir, sem interferir.

 

Atendemos após o ritual os pacientes que chegaram e assim terminando os trabalhos encerramos o nosso dia. Todos em paz, todos felizes, todos agradecendo a Deus por mais um dia de caridade.

 

Salve Deus!

 

Adjunto Apurê

An-Selmo Rá

18.03.2018

 

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