POVO DO LODO

Salve Deus!

 

A vida após a vida.

 

Que viagem difícil, complicada e cheia de suplícios. Cheguei em um grande cemitério com enormes vielas e túmulos. Andei e andei por todos os caminhos e em cada túmulo havia vida. Espíritos ainda presos em suas dimensões. Ao chegar em túmulo azul que havia sido recentemente pintado, era como se fosse uma capelinha, bem feita, dentro havia muito espaço. Na frente alguns homens magros eram donos deste lugar. Conversei com eles e eles me mostraram como viviam ali. Não havia nada, eram somente hospedes do mundo superficial que se impregnou no espiritual.

 

Fui recebido em todos os túmulos que visitei. Mas não era aquilo que eu procurava, era algo que se ligava ao cemitério. Após andar por todas as vielas eu cheguei ao fundo dele e lá havia uma passagem, tipo um buraco, que se ligava ao outro mundo. Fiquei um pouco receoso em passar por ali, mas eu tinha que ir, pois a minha missão não estaria completa. Passei e cheguei em um mundo diferente, lusco fusco, porque eles aproveitavam esta ligação da réstia do sol para parcamente iluminar este lado. Conforme eu ia adentrando mais escuro ia ficando.

 

Encontrei com um povo diferente. O povo do lodo. Eram espíritos que se prenderam a este plano e criaram uma enorme colônia de mortinhos. Era como se fosse uma estrada de terra encardida e muito barro que eu sentia nos meus pés. Olhando para baixo vi que era uma terra preta e gosmenta que prendia não deixando meus pés se movimentarem livremente. Mas mesmo assim fui andando e conforme eu via, muitos espíritos ali vivendo.

 

Havia crianças, anões, construções rústicas feitas em barro e pedra, tipo cavernas, onde habitavam sem a menor distinção. Um menino ou anãozinho veio em minha direção, só que ele estava todo coberto por uma camada de óleo grosso. Aquilo tinha um cheio rançoso, gosmento, parecia estar derretido. Ele me acompanhou por todo lado, não me deixava me perder por aquele lugar difícil e triste. Outros espíritos estavam dentro do lodo, pareciam querer nadar, mas não, eles estavam presos aos seus destinos. Outros estavam na margem, já tinham conseguido superar estava fase difícil, mas estavam também presos com seus pés grudados. Eles me olhavam suplicando ajuda, mas não aceitavam sair dali. Eram espíritos sem consciência alguma, não tiveram esclarecimento da vida após a morte.

 

Muitas mãos erguidas para cima como se pedissem ajuda, foi ai que eu vi esta dor resumida na falta de esperança. Aprofundei-me muito e tão logo a luz se foi, mas eu via com os olhos do espírito e isso me ajudava a reconhecer o caminho. Chegou uma hora que já não era mais possível caminhar, estava muito pesado e decidi voltar, mas e aí, por onde. Foi esta criança que me ajudou a voltar me dizendo por onde andar.

 

Cada passo que eu dava de volta mais suave ficava e meus pés começaram a se libertar. Num certo momento o menino gritou.

_ Vovó! To trazendo o moço de volta!

Era uma mulher velha e bem magra que tomava conta de uma caverna, aliás, eram muitas cavernas. Ela gritou lá de dentro que eu fosse embora, pois ali não era meu lugar. Acabei voltando pelo mesmo caminho.

 

Quando eu passei pelo buraco um homem ficou me olhando e foi o mesmo que me recebeu de volta. Eu pedi perdão, mas eu tinha que conhecer este povo que vivia no lodo. Era um homem que tomava conta desta entrada, tipo um segurança, porque fora determinado como missão para ele. Era um antigo morador deste cemitério.

 

Voltei para dentro e após me limpar daquela crosta encardida e gosmenta eu pude sentir mais leveza no meu espírito. Como é difícil para os espíritos sem esclarecimento da vida após seu desencarne. Eles ficam presos a esta dimensão e por Deus, desacreditam até na vida após a morte.

 

Eles vivem presos aos seus túmulos esperando um dia ressurgirem das cinzas. Ninguém renasce da morte, ninguém cria matéria, mas o que eu entendi da tal ressurreição que eles falam é a do espírito. Eles ficam esperando serem resgatados pela vida eterna. Esperam que Deus os venha buscar e dar para eles uma nova vida.

 

Milhares de anos esperando já não seria uma resposta para estas duvidas. Mas para eles não existe tempo, dia e nem hora. Para eles os mil anos não passaram e vivendo na mesma condição sofredora. Quando eles chegam no templo, na casa de Seta Branca, dando de cara com as luzes, as cores, a movimentação das energias, aí ficam vidrados. É um impacto tão grande que mexe com seus pensamentos.

 

Na mesa aberta ontem nos trabalhos este povo teve a oportunidade de receber este esclarecimento. Todos vieram buscar as suas reflexões, a orientação dos doutrinadores e aparas. A mesa pesou bastante, pois ela foi aberta neste canal sensorial. Os espíritos em fila querendo passar, queriam a luz, queriam as cores, queriam Deus.

 

Viver sem luz misturada ao lusco fusco, cinza tenebrosa, lodo, parcialmente ouvindo rezas do cemitério, eles sentem a movimentação do plano físico, mas são incapazes de alcançar. Vivem sob os pés que batem na terra como cascos sem conhecimento da verdade.

 

De repente um estalo com um zumbido forte como se fosse um trovão. A porta se fechou e eu me senti em casa. Vim trazendo em meus pensamentos esta história como conto em verdade espiritual, não física, mas o que o espírito consegue alcançar pela sua missão. Muita coisa nós só vamos conhecer estando lá neste caminho onde muitos percorrem e não se lembram. Mas os laços que se ligam são eternos e multiplicadores, sim, para se evitar este contra tempo é necessário o conhecimento da verdade. Como disse Jesus: “Somente a verdade vos libertará”.

 

Cheguei, são cinco horas da madrugada, sentindo ainda o cheiro rançoso, mas o perfume madeira do oriente vai fechar esta porta. O aroma deste perfume impede que nossos espíritos sintam o cheiro da morte. Ele bloqueia justamente esta porta do chakras impedindo dos dois lados se comunicarem. Isso para quem tem esta porta aberta, este portal das dimensões. A liberdade de ir e vir se confunde com a missão do sacerdócio. Eu trabalho em dois planos com distinção do espírito e do corpo físico. Isso me da à possibilidade de aprender mais, pois somos eternos aprendizes.

 

A vida do povo do lodo que se liga por este cemitério. Não vi como castigo de Deus, mas sim como falta de esclarecimento. Eles nunca tiveram orientação do que acontece após o desenlace dos seus corpos.

 

Salve Deus!

 

Adjunto Apurê

An-Selmo Rá

05.11.2017

 

Sair da nossa lista:

Receber/Deletar

Deixe uma resposta