PAI E FILHA

Salve Deus!

 

Depois de uma longa jornada missionária, resolvemos, eu e minha ninfa, passarmos por uma pequena casa transitória de amigos e irmãos.

 

Nos caminhos espirituais temos muitas coisas para aprender, coisas que nos revelam a nossa verdade. Neste caso, desta viagem, estivemos além limites, onde até os olhos físicos secam pela falta de lubrificação. Ao passarmos pela dimensão dos vastos campos de brilhos condicionados ao nosso coração, vamos despertando em Deus os caminhos dos espíritos.

 

Chegamos. Dava para ver do caminho a casinha caiada de branco. Ela tinha uma fachada comprida e ali esta noite seria o reencontro com dois espíritos, pai e filha. Este pai foi casado na terra com uma mulher que foi somente instrumento para lhe trazer a sua amada companheira e filha das ultimas horas. Depois do nascimento ela abandonou o lar e nunca mais foi vista, apesar de a procurarem, não a encontraram. Os anos foram passando e ele deu conta de criar aquela criança com muita dificuldade, com muito amor, um amor de pai e mãe juntos.

 

Estou escrevendo e tentando lembrar os nomes deles, porque quando a gente retorna do plano espiritual, muitas coisinhas vão se apagando. Ao chegar em frente a esta casa nós não entramos, ficamos do lado de fora. Eu com minha esposa olhávamos pela cerca e via alguns espíritos saindo, indo embora. Ele nos viu e nos chamou.

 

_ Mestre Fernando! Pode entrar! Venha, estávamos vos esperando!

 

Ao cruzarmos pela cerca magnética havia alguns espíritos enlameados, pareciam como pequenos animais que queriam se grudar em nossas pernas. Eles estavam bem na divisa, mas não entravam, não tinham permissão. Ao cruzarmos eles ficaram do lado de fora. Entramos na casa e grandes salas com corredores enormes davam uma posição mais sutil ao ambiente. Isabela, a filha, veio nos receber e com um sorriso em seu rosto e sentou-se para nos dar um cantinho. O rapaz, que eu não lembro o nome, mas ele me conhece, eu fiquei quieto, esperando ele ou ela pronunciarem. Sabe, quando a gente esquece o nome ficamos constrangidos em perguntar.

 

Foi um momento de descanso, porque as viagens longínquas tragam uma boa parte de nossas energias. Eu já havia trabalhado no mesmo dia com meu sobrinho concretando o piso do aledá da pira. Estava esgotado fisicamente e até para me transporta foi difícil. O cansaço era tão grande que eu estava vazio.

 

Sentamos no grande sofá da sala e ali riamos das nossas vidas na terra. A terra é um estágio muito importante para a conscientização do espírito. É aqui que teremos as maiores provações da evolução. Como destes dois espíritos que estão agora no canal vermelho.

 

_ Sabe Mestre! Estávamos aqui com esta enorme casinha e ficávamos solitários! Éramos somente nós dois e isso nos trazia sentimentos de tristeza! Queríamos voltar a reencarnar, começar tudo de novo, mas o espírito livre das amarras disse que seríamos separados de novo! Eu não aceitei perder minha filha, então me silenciei! Foi aí que nos veio à ideia de abrir nossas portas, transformar esta casa em um albergue! Como você me disse, uma casa transitória! Ajudar milhares de espíritos que se perderam em suas caminhadas! Como viram quando chegaram, era um grupo de recém desencarnados que chegaram aqui aos prantos! Eles foram sacrificados na terra com morte violenta! Estavam perdidos e quando chegaram aqui era uma gritaria somente de dor e desespero!

_ Meus Deus!

_ Sim, meu irmão! Ao cruzarem a linha da morte eles não tinham noção do que os esperava deste lado e como já fomos encarnados na terra, nós sentimos a mesma coisa! Foi um longo trabalho de evangelizar, de orientar! Eu e minha filha sentimos os efeitos do desencarne deles, mas juramos ajudar e não perguntar! Foi muita dor, mas eles receberam aqui a doutrinação, e agora já estão mais calmos, irão seguir seus destinos!

_ Mas eles irão para onde!

_ Vão seguir seus destinos, para outras casas de assistência! Cada qual irá receber conforme o seu merecimento! Aqui foi somente uma passagem, um reencontro para depois ter uma melhor orientação! Talvez voltem para a terra em busca de respostas, outros mais conscientes devem seguir para suas origens, e outros quem sabe, dependendo de suas incompreensões caiam no abismo profundo!

_ Aqui tudo tem explicações!

_ Sim! Estas mortes violentas são as que mais nos assustam! Os espíritos saem de seus corpos em choque e tão logo se perdem nos vasto mundo invisível! Tem uns que ficam sobre o corpo em transição! São estes que não acreditam na vida após morte, então ficam ali apagados! Outros se desesperam, pois a morte não era esperada!

_ Salve Deus!

_ Mas que bom que vieram! Trouxeram-nos muitas alegrias! Vocês dois cumprem uma grande missão na terra, já temos noticias aqui de vocês em sua casa espiritual! Passam milhares de espíritos em busca de amor e perdão! E ainda, depois de tanto trabalho em terra, conseguem cumprir suas missões neste lado da vida! Missão de amor e esperança!

_ Nós fazemos o que podemos!

_ Não meu irmão! Vocês fazem além do limite de suas forças! Uma vida dupla não são todos que conseguem manter! Quarenta anos de sacerdócio sem ferir ou machucar seus irmãos! Muitos já desistiram e se derrotaram por não compreenderem seus laços afetivos! Alguns desencontros já tiveram, sim, mas motivos de razão incondicional, reencontros de velhos amigos e inimigos! O que importa é que sempre estão prestativos a ajudar, dia e noite!

_ A vida de missionário é complicada!

_ Eu que diga, mestre! Eu tive o maior compromisso com minha amada filha e isso me deu este cantinho aqui! A mãe dela foi somente um instrumento feliz para seu reencarne! Depois disso nunca mais eu a vi, nem na terra e nem aqui no céu! Ficamos desolados pelo abandono da mãe, mas Deus nos proveu de outra forma!

_ Deus é muito bom!

_ Sim! No começo eu me debati muito contra Deus! Eu não aceitava esta dor, mas me foi mostrado tudo que estava programado! Eu jurei passar por esta provação, mas tinha que ser com este espírito de mina origem, minha filha! A mãe era somente um instrumento, depois disso, ela se afastaria!

_ Como dói certas coisas que temos que passar!

_ Sim mestre! Com toda certeza a dor vem para nos redimir e reparar nossos destinos! A única certeza que temos aqui é que ninguém permanece tempo maior que seu juramento! Na terra tem limites de vida e aqui não, aqui a eternidade está além daquela porta!

_ Como foi bacana esta ideia da casa transitória!

_ Eu e Isabele estávamos tristes e largados! Aí um dia Deus nos levou para a terra para nos mostrar algo! Chegamos na sua casa de oração e fomos bem recebidos por vocês e não éramos ligados ao espiritismo! Ao chegarmos neste templo tivemos explicações de tudo e isso nos despertou para uma missão aqui, neste mundo além! Voltamos para o céu com toda coragem e esperança e abrimos as portas de nossa casa para receber os espíritos em transito! Desde então muitos já passaram por aqui e foram resgatados! Outros desceram para tentar achar seus parentes na terra e não voltaram mais! A vida é assim, mas nós aprendemos a lidar com nossas emoções e fraquezas!

 

Eu olhava para aquele casal e a moça brilhava em sua aura. Mas eu não consegui lembrar o nome dele. Eu o conhecia tanto que minha cabeça entendia o motivo desta ausência. Fiquei quieto, deixei a conversa seguir.

 

_ Me diga meu irmão! O que são aqueles seres ali fora, na entrada de sua casa!

_ São espíritos sofredores que não aceitam de forma alguma seguir! Estão ali há muito tempo e cada vez mais acrisolados em suas mortes! A cada passo tentamos ajudar, mas eles têm muito ódio de Deus e com isso estão regredindo em suas formas! São nossos irmãos, mas só vão receber o testemunho da verdade quando aceitarem!

_ Meu Deus!

_ Sim! Deus Pai de amor e justiça!

_ Temos que ir embora! Já está clareando o firmamento da terra!

_ Ficamos felizes em revê-los! Que Deus vos dê sempre a coragem de enfrentar suas dificuldades! Vocês formam um lindo casal missionário! Vão com Deus!

 

Nisso Isabela trouxe um ramo de flores e com voz meiga me disse!

_ Meu nome é Isabele, lembrasse! Deus vos acompanhe para suas moradas na terra!

 

Eu sorri. Nossa a gente esquece de muita coisa mesmo. Mas eles não esquecem jamais de quem somos e o que fazemos.

 

Voltamos. Chegamos em terra, olhei no relógio, cinco horas da manhã. Não consegui mais ficar deitado.

 

Salve Deus!

 

Adjunto Apurê

An-Selmo Rá

04.10.2017

 

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